A interpretação fotográfica
Este é um assunto muito complexo e que causa confusão. Isso acontece porque é muito comum as pessoas confundirem interpretação com percepção, o que complica bastante a tentativa de o fotógrafo transmitir uma mensagem, da maneira como ele desejou, para o observador da imagem. Todo fotógrafo deve ter em mente que tudo o que ele registra (da maneira como decidiu) não terá o mesmo significado para diferentes observadores e, mais complicado ainda, não terá o mesmo significado que ele desejou comunicar.
Complexo? Sempre será! Esse processo de interpretação envolve desde a escolha que o fotógrafo faz do momento até as conclusões que os observadores terão a respeito dos documentos bidimensionais – as fotografias – que, por serem bidimensionais, já não podem ser consideradas como a realidade, que é tridimensional. Esse fato é bem explicado pelo grande autor Kossoy, quando diz: “a realidade fotográfica não corresponde (necessariamente) à verdade histórica, apenas ao registro expressivo da aparência”.
Todo o processo de interpretação de fotografias envolve, basicamente, três “participantes” que merecem reflexão: a imagem, o fotógrafo e o observador. Essa divisão facilita a compreensão.
A IMAGEM
Analisar imagens é sempre uma tarefa difícil. Como falei anteriormente, as pessoas confundem percepção com interpretação e acabam concluindo que não é necessário analisar uma imagem, porque acreditam que ela é um recorte do real. Isso as faz esquecer que cada um possui um olhar diferente, o que provoca em inúmeras interpretações distintas.
Mas não é difícil aprender a analisar imagens, basta alcançar o que o autor José de Sousa Martins define como alfabetização fotográfica: “a capacidade de ver uma fotografia e interpretar o que ela contém, como requisito para que a fotografia entre no circuito dos processos interativos de que é instrumento e indício”.
A leitura de imagens acontece em três fases, que ocorrem na seguinte ordem:
Percepção – fase ótica, onde percebemos as formas e as tonalidades de uma imagem no geral.
Identificação – combina ações óticas e mentais que ajudam a reconhecer os componentes, a identificação é quase sempre igual para todas as pessoas.
Interpretação – ação totalmente mental e pessoal, sendo influenciada pelas experiências e lembranças de cada observador.
O FOTÓGRAFO
O fotógrafo possui experiências e lembranças em seu repertório pessoal que o influenciam na hora de eleger uma cena com todos os detalhes registrados ou “escondidos”. A fotografia será sempre um documento sobre a mentalidade do fotógrafo, que inicia o processo de geração de sentido. Kossoy define estes profissionais e amadores como “filtros culturais”, que sempre agem influenciados por suas ideologias e estado de espírito.
É aqui que se concentra o principal fator a ser considerado na hora de interpretar uma fotografia: a informação registrada só será puramente compreendida quando conhecermos a verdadeira intenção do fotógrafo. Na verdade, o jogo da interpretação não é realizado para conhecer a realidade, mas para perceber como determinada pessoa observou um momento e quis registrá-lo.
O OBSERVADOR
Lembranças, estado pessoal, conhecimento e vivência são alguns dos aspectos que sempre influenciam uma pessoa que observa uma fotografia. Uma mesma foto pode ter muito significado para algumas pessoas, mas para outras pode ser apenas uma imagem qualquer. Por exemplo, se você não conhecer uma personagem importante de uma fotografia, aquela imagem será apenas um retrato para você.

Para José de Sousa Martins, “o leitor de fotografia pratica um confisco visual da imagem, remontando-a, a partir de suas insuficiências, no seu próprio códido de leitura que é também o manual sintético de suas experiências e das experiências do seu ver”.
Por isso é tão difícil um fotógrafo conseguir agradar e/ou informar todos os olhares. Mas, da mesma maneira como ele definiu o momento, a cena, o recorte e os detalhes que preferiu registrar, o observador irá realizar a leitura da imagem a sua maneira, aproximando-se ou afastando-se da interpretação sugerida pelo fotógrafo.
Para fechar este post e explicar melhor esta ideia, deixo aqui mais uma citação de Kossoy: “os diferentes receptores (…) reagem de formas totalmente diversas – emocionalmente ou indiferentemente – na medida em que tenham ou não alguma espécie de vínculo com o assunto registrado, na medida em que reconheçam ou não aquilo em que encararem com ou sem preconceitos o que vêem (em função das posturas ideológicas de cada um)”.
Indicação de leitura
Realidades e Ficções na Trama Fotográfica, de Boris Kossoy
Sociologia da Fotografia e da Imagem, de José de Sousa Martins
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http://interpretanteimediato.wordpress.com/ Tereza Jardim
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Eliane Terrataca



“Fós Grafê” são duas palavras gregas que, unidas, também significam “desenhar com luz” e dão nome a este blog que pretende reunir informações sobre fotografia. 

